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ESG nas relações de trabalho: diversidade no papel é suficiente?

Foto do escritor: Rodrigo Sarruf
Rodrigo Sarruf
11 de ago.
5 min de leitura
Reunião de equipe em escritório moderno, cinco pessoas ao redor da mesa, tomando notas e ouvindo com clima colaborativo.

Diversidade, equidade e inclusão passaram a aparecer com frequência em apresentações corporativas, códigos de conduta e relatórios institucionais. Esses temas fazem parte do pilar social das políticas ESG, sigla utilizada para reunir critérios ambientais, sociais e de governança, mas existe uma pergunta que as empresas precisam fazer: declarar compromisso com a diversidade é suficiente?


Quando a política divulgada ao mercado não corresponde à realidade das relações de trabalho, a empresa pode criar uma distância perigosa entre discurso e prática. Por isso, o ESG nas relações de trabalho não deve ser tratado apenas como uma estratégia de imagem. Ele precisa conversar com recrutamento, remuneração, promoções, liderança e canais internos de denúncia.


O que ESG tem a ver com Direito do Trabalho?

A sigla ESG vem dos termos em inglês Environmental, Social and Governance e em português, costuma ser relacionada aos aspectos ambientais, sociais e de governança. No ambiente trabalhista, o pilar social pode envolver temas como diversidade, igualdade de oportunidades, equidade salarial, inclusão, combate à discriminação, saúde e segurança, condições de trabalho e respeito aos direitos humanos.


A governança também possui relação direta com a forma como a empresa cria regras, investiga denúncias e acompanha o cumprimento das próprias políticas. Por isso, ESG e relações de trabalho estão mais próximos do que muitos gestores imaginam.


Ter uma política de diversidade é suficiente?

Não. Criar um documento é apenas uma etapa. Imagine uma empresa que divulga publicamente possuir compromisso com a diversidade, mas ao analisar seus processos internos, percebe-se que não existem critérios claros de promoção, os gestores nunca receberam treinamento e denúncias de discriminação não possuem um procedimento de investigação.


Nesse cenário, existe uma política formal, mas falta estrutura para transformar o compromisso em prática.


O problema não está em assumir compromissos institucionais, mas em comunicar valores que não são acompanhados por procedimentos internos coerentes.


Onde as empresas mais erram nas políticas de diversidade?


Criar campanhas sem revisar processos internos

Publicar uma campanha em uma data comemorativa pode gerar visibilidade, mas diversidade não deve existir apenas no calendário de comunicação. A empresa precisa observar como funcionam seus processos de contratação, promoção, remuneração, avaliação de desempenho e desligamento. Justamente nesses procedimentos que possíveis distorções podem aparecer.


Não analisar critérios de promoção

Imagine dois funcionários com funções semelhantes. Um deles recebe oportunidades constantes de desenvolvimento e participa de projetos estratégicos. O outro permanece anos sem acesso aos mesmos caminhos. Isso não significa, por si só, que existe discriminação. Porém, quando a empresa não possui critérios minimamente organizados para promoção e desenvolvimento, fica mais difícil explicar por que determinadas decisões foram tomadas.


Ignorar diferenças salariais

A igualdade salarial ganhou ainda mais destaque com a Lei nº 14.611/2023. A legislação trata da igualdade salarial e de critérios remuneratórios entre mulheres e homens para trabalho de igual valor ou exercício da mesma função, conforme as regras aplicáveis.

Para empresas com 100 ou mais empregados, existem medidas específicas relacionadas à transparência salarial. Por isso, políticas ESG que falam em equidade precisam conversar com a realidade da folha de pagamento.


ESG e igualdade salarial: onde está a conexão?

Uma empresa pode afirmar que valoriza oportunidades iguais, mas os dados internos podem revelar diferenças que merecem investigação. É justamente por isso que a análise de indicadores se tornou tão importante.


A empresa pode observar, por exemplo a distribuição de cargos de liderança, critérios de remuneração, acesso a promoções, participação em programas de desenvolvimento, diferenças entre áreas e funções. O objetivo não deve ser olhar apenas para números isolados, sendo necessário compreender os critérios utilizados nas decisões trabalhistas. Quando a empresa identifica uma diferença, precisa conseguir analisar sua origem.


O risco do “ESG de fachada”

Existe uma expressão utilizada no mercado para criticar práticas de sustentabilidade apresentadas apenas como estratégia de imagem.


No contexto trabalhista, problema semelhante pode ocorrer quando a empresa cria políticas sociais que não possuem aplicação real.

Exemplos:

  • canal de denúncia que não investiga relatos;

  • código de conduta desconhecido pelos gestores;

  • política de diversidade sem critérios de acompanhamento;

  • compromisso com equidade sem análise remuneratória;

  • discurso de inclusão sem acessibilidade adequada.


Quanto maior a diferença entre o que a empresa afirma e o que efetivamente pratica, maior pode ser o desgaste interno e reputacional.


Diversidade significa contratar com base apenas em características pessoais?

 

Não. As políticas de diversidade e inclusão precisam ser estruturadas com critérios e objetivos claros. A empresa deve evitar práticas discriminatórias nos processos de contratação e gestão de pessoas.


Ao mesmo tempo, programas internos precisam ser planejados de acordo com a legislação aplicável e com a realidade da organização. Decisões improvisadas podem criar novos problemas e, por isso, o RH, a liderança e áreas responsáveis pela governança devem trabalhar de forma integrada.


O papel dos gestores no ESG trabalhista

Uma política corporativa pode ser bem escrita e ainda assim falhar na prática. Isso acontece porque a experiência do trabalhador com a empresa ocorre, muitas vezes, por meio do gestor direto.


São os líderes que participam de avaliações, distribuição de tarefas, feedbacks, promoções e aplicação de medidas disciplinares. Se os gestores não conhecem as políticas da empresa, decisões inconsistentes podem surgir.


O Treinamento não deve ser visto apenas como apresentação de slides, sendo necessário explicar como os valores institucionais interferem nas decisões reais da liderança.


Como estruturar práticas ESG nas relações de trabalho?

O primeiro passo é entender a realidade da empresa.

Antes de criar novas campanhas, vale revisar:

  • políticas internas;

  • critérios de contratação;

  • estruturas de cargos;

  • práticas remuneratórias;

  • processos de promoção;

  • canais de denúncia;

  • procedimentos de investigação;

  • treinamento de gestores.


A empresa também pode definir indicadores para acompanhar a evolução das medidas adotadas. Sem acompanhamento, fica difícil saber se uma política produz resultados ou existe apenas formalmente.


Checklist de ESG trabalhista para empresas

A empresa consegue responder às seguintes perguntas?

  • Existem critérios claros de promoção?

  • As práticas remuneratórias são revisadas?

  • Gestores recebem orientação sobre discriminação?

  • O canal de denúncia possui procedimento de apuração?

  • Existem dados sobre diversidade na organização?

  • As políticas internas são conhecidas pelos funcionários?

  • A empresa acompanha a aplicação prática dessas políticas?

  • O discurso institucional corresponde à rotina de trabalho?

Se várias respostas forem negativas, pode existir uma distância entre a política ESG e a realidade da empresa.


Perguntas frequentes — FAQ


O que é ESG nas relações de trabalho?

É a aplicação de aspectos sociais e de governança às relações profissionais, envolvendo temas como diversidade, igualdade, condições de trabalho e procedimentos internos.


Toda empresa é obrigada a ter uma política ESG?

Não existe uma obrigação trabalhista geral para que toda empresa adote uma política chamada “ESG”. Porém, diversas obrigações legais relacionadas à igualdade, não discriminação e relações de trabalho devem ser respeitadas independentemente do uso dessa sigla.


Empresas precisam analisar diferenças salariais?

As empresas devem observar as regras de igualdade salarial. A Lei nº 14.611/2023 também estabelece medidas específicas de transparência para empresas com 100 ou mais empregados.


Ter um canal de denúncia protege a empresa?

A simples existência do canal não resolve todos os riscos. É importante possuir procedimentos adequados para recebimento, análise e tratamento das informações.


Conclusão

ESG nas relações de trabalho não deve existir apenas em apresentações institucionais.


A diversidade, a equidade e a inclusão precisam conversar com os processos que realmente influenciam a vida profissional dos trabalhadores, e contratação, remuneração, promoção, liderança e investigação de denúncias fazem parte dessa análise.


Para as empresas, o principal cuidado é reduzir a distância entre aquilo que é comunicado e aquilo que acontece diariamente no ambiente de trabalho. Uma política consistente não é apenas aquela que está escrita, mas que pode ser identificada na prática.


A revisão preventiva das políticas de diversidade, remuneração e governança trabalhista pode ajudar empresas a identificar inconsistências e estruturar procedimentos internos mais coerentes com os compromissos institucionais assumidos.



 
 
 

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